Pelé, futebol brasileiro e o Brasil além dos 90 minutos



Artigo de opinião


Pelé, futebol brasileiro e o Brasil além dos 90 minutos

O esporte pode unir o país e renovar a esperança, mas não deve nos fazer esquecer a violência, a corrupção, a polarização política e os desafios da vida real.

Por | PUBLIRIO

Pelé em fotografia de 1960, símbolo do futebol brasileiro
Pelé em 1960. Imagem disponível no Wikimedia Commons e identificada como domínio público. Fonte:
Wikimedia Commons.

Há textos que nascem para vender um produto. Outros, para apresentar uma ideia. A mensagem inspirada nas palavras de Pelé faz algo ainda mais raro: convida o leitor a refletir sobre o Brasil.

O Rei do Futebol reconhecia a força que o esporte exerce sobre os brasileiros. Talvez seja o grito de gol, a amizade construída em torno da bola ou a possibilidade de esquecer, por apenas 90 minutos, os problemas enfrentados diariamente.

O futebol pode nos oferecer 90 minutos de união. O Brasil, porém, exige responsabilidade durante a vida inteira.

Pelé e o poder de união do futebol brasileiro

Pelé ultrapassou as fronteiras do esporte. Sua imagem passou a representar talento, criatividade, disciplina e a capacidade de um brasileiro conquistar o mundo. Com a camisa da Seleção, ajudou a transformar o futebol em uma das maiores expressões culturais do país.

O futebol reúne pessoas de diferentes classes sociais, regiões, religiões e opiniões. Durante uma partida decisiva, desconhecidos comemoram juntos, famílias se abraçam e o país parece falar a mesma língua.

Essa capacidade de união é valiosa. Entretanto, ela não pode existir apenas dentro dos estádios ou durante uma Copa do Mundo. O sentimento coletivo despertado pelo esporte precisa alcançar a vida pública, o respeito às diferenças e a defesa do bem comum.

Retrato de Pelé sorrindo em 1965
Retrato de Pelé em 1965. Imagem do Nationaal Archief disponibilizada em CC0. Fonte:
Wikimedia Commons.

O Brasil que reaparece depois do apito final

É impossível falar da paixão nacional sem olhar para o país que existe fora dos estádios. Um Brasil marcado pela violência urbana, por famílias que vivem com medo e por cidadãos que se acostumaram a grades, câmeras e cercas como parte da paisagem cotidiana.

Todos os dias, brasileiros mudam seus horários, trajetos e hábitos por causa da insegurança. Em muitas regiões, comunidades inteiras convivem com a presença de organizações criminosas, traficantes e milicianos, enquanto o poder público luta para recuperar o controle e garantir direitos básicos.

Quando a bola entra em campo, tudo isso parece desaparecer por alguns instantes. O gol interrompe a angústia. A torcida reúne desconhecidos. A camisa da Seleção cria uma identidade coletiva que a política, muitas vezes, não consegue produzir.

Mas a partida termina. As luzes se apagam. E o cidadão encontra novamente a realidade esperando do lado de fora.

Corrupção política e perda de confiança

O Brasil também convive com sucessivos escândalos de corrupção. Recursos que deveriam financiar hospitais, escolas, segurança, transporte e oportunidades de trabalho muitas vezes se perdem na má administração, no desperdício e na defesa de interesses particulares.

A repetição desses episódios enfraquece a confiança nas instituições e cria a sensação de que a honestidade é uma exceção. Esse sentimento é perigoso porque pode levar o cidadão a desistir da política, justamente quando sua participação é mais necessária.

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

— Rui Barbosa

A frase atribuída a Rui Barbosa atravessa o tempo porque traduz a sensação de uma sociedade cansada de assistir à injustiça, à impunidade e à desonra sendo tratadas como fatos normais. O maior perigo não está apenas nos atos errados, mas na possibilidade de nos acostumarmos com eles.

Eleições, polarização e a escolha do menos pior

Em períodos eleitorais, a polarização transforma adversários em inimigos. Em lugar de projetos, ideias e soluções, o debate público frequentemente se converte em confronto, intolerância, ataques pessoais e acusações.

Muitos eleitores chegam às urnas não para escolher o candidato que consideram melhor, mas para votar naquele que lhes parece o menos pior. Essa resignação enfraquece a esperança e reduz a política a uma decisão orientada pelo medo ou pela rejeição.

Há candidatos e grupos políticos citados em investigações, denúncias ou suspeitas de vínculos com estruturas criminosas. Toda acusação precisa ser examinada com responsabilidade, respeito às provas, à presunção de inocência e ao devido processo legal.

Isso não impede que o eleitor pesquise a trajetória dos candidatos, conheça suas propostas, verifique informações e recuse a ideia de que todos são iguais. A democracia exige participação, memória e fiscalização permanente.

Pelé durante evento em São Paulo no ano de 2007
Pelé em 2007. Foto de Savaman, licenciada sob
CC BY-SA 2.0.
Fonte:
Wikimedia Commons.
Imagem exibida sem alteração.

A paixão pelo futebol não pode substituir a consciência

O futebol é uma das manifestações mais bonitas da cultura brasileira. Ele transforma ruas em arquibancadas, famílias em torcidas e desconhecidos em companheiros de celebração.

Entretanto, essa paixão não pode servir como anestesia permanente. Uma vitória esportiva não reduz a violência. Uma taça não combate a corrupção. Um gol não melhora a educação, não diminui a desigualdade e não devolve dignidade a quem a perdeu.

O entusiasmo com a Seleção deve caminhar ao lado da responsabilidade de fiscalizar governantes, analisar candidatos, respeitar as leis e cobrar políticas públicas eficientes.

O principal ensinamento de Pelé

Pelé compreendeu como poucos o poder simbólico do futebol. O Rei não diminuiu a importância do esporte. Pelo contrário: mostrou que ele pode gerar amizade, pertencimento, esperança e união.

Mas sua mensagem também nos convida a levar esses valores para além dos estádios. O respeito demonstrado entre torcedores precisa alcançar o debate político. A união produzida pela camisa da Seleção precisa chegar à defesa da saúde, da educação, da segurança e da justiça.

O amor pelo Brasil não pode aparecer apenas durante a Copa do Mundo. Ele precisa estar presente na escolha dos governantes, na proteção do dinheiro público e na recusa da violência, da corrupção e da intolerância.

O jogo mais importante acontece fora das quatro linhas

Quando termina a partida, continuam esperando as mães que perderam filhos para a violência. Continuam esperando os jovens sem oportunidades, os trabalhadores, os aposentados, os empresários, os pacientes nas filas dos hospitais e milhões de brasileiros que desejam viver em um país mais justo.

Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos associados à mensagem de Pelé: o futebol nos lembra que somos capazes de torcer juntos. A cidadania exige que também sejamos capazes de construir juntos.

Não basta escolher o menos pior. É necessário cobrar o melhor possível de quem pretende administrar o dinheiro público e decidir os rumos da sociedade.

O futebol pode nos unir por 90 minutos. Mas o verdadeiro campeonato acontece durante todos os outros minutos do ano, quando precisamos escolher, fiscalizar, participar e decidir que Brasil queremos deixar para as próximas gerações.

O sonho é de todos nós.

Palavras-chave: Pelé, futebol brasileiro, Brasil, violência urbana, corrupção política, eleições, polarização, cidadania, Rui Barbosa e Seleção Brasileira.

Créditos das imagens: as fotografias usadas neste artigo foram selecionadas no Wikimedia Commons conforme as licenças indicadas em cada legenda. Preserve as legendas e os links de atribuição ao publicar.

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