Reportagem investiga quanto o município recebe, onde os recursos são aplicados e se o dinheiro do petróleo foi responsável pela recuperação e pela transparência das águas da Lagoa de Araruama.
Por Silvio Barbosa — PUBLIRIO PODCAST
Reportagem especial | Região dos Lagos, Rio de Janeiro

Quem chega a Iguaba Grande, na Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro, encontra uma cidade pequena, de forte vocação turística, situada às margens da Lagoa de Araruama. Em dias de sol e pouco vento, a água rasa permite enxergar o fundo em diversos pontos da orla. O cenário desperta uma pergunta inevitável: por que a água está tão transparente e qual foi o papel dos royalties do petróleo nessa transformação?
A resposta não cabe em uma explicação única. Os royalties aumentam significativamente a capacidade financeira do município e aparecem entre as fontes utilizadas em obras de infraestrutura, saúde, educação e iluminação. Entretanto, as evidências públicas consultadas não permitem afirmar que a limpeza da lagoa tenha sido financiada exclusivamente — ou diretamente — com esse dinheiro. A recuperação ambiental está associada principalmente à expansão do saneamento, à coleta de esgoto em tempo seco, à implantação de redes separativas, à fiscalização e às características naturais da lagoa.
Vídeo mostra a transparência da água em Iguaba Grande
O registro abaixo foi realizado por Silvio Barbosa e mostra, no dia da gravação, a aparência limpa e a transparência da água na Praia de Iguaba Grande.
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Observação: a aparência visual registrada em um dia específico não substitui os boletins técnicos de balneabilidade do Inea.
Quem é o prefeito atual de Iguaba Grande?
O prefeito atualmente no cargo é Fabinho Costa. O próprio portal oficial da Prefeitura identifica o gestor e apresenta projetos e notícias da administração municipal. Em abril de 2026, Fabinho Costa também participou de uma articulação regional em defesa da manutenção das receitas petrolíferas, diante das discussões judiciais sobre a distribuição dos royalties.
A preocupação tem explicação econômica: para municípios fluminenses que recebem valores expressivos, uma redução abrupta pode atingir obras, serviços e o planejamento orçamentário. Isso não significa que toda despesa municipal seja paga com royalties, mas revela o peso dessa receita na capacidade de investimento.
Quanto Iguaba Grande recebe em royalties do petróleo?
Os valores variam mensalmente. A distribuição é influenciada pela produção de petróleo e gás, pelo preço de referência, pelo câmbio, pela localização dos campos, pelos critérios legais e por eventuais ajustes. Por isso, não é correto tratar um único mês como receita fixa.
Informativos oficiais do Governo do Estado do Rio de Janeiro mostram que Iguaba Grande recebeu valores elevados em diferentes meses de 2025. A tabela abaixo apresenta uma amostra documentada:
| Competência informada | Total destinado a Iguaba Grande | Fonte |
|---|---|---|
| Janeiro de 2025 | R$ 17.125.785,22 | Informativo mensal do DRM-RJ |
| Fevereiro de 2025 | R$ 14.173.771,05 | Informativo mensal do DRM-RJ |
| Março de 2025 | R$ 19.061.707,95 | Informativo mensal do DRM-RJ |
| Maio de 2025 | R$ 17.476.983,20 | Informativo mensal do DRM-RJ |
| Junho de 2025 | R$ 17.057.660,52 | Informativo mensal do DRM-RJ |
| Julho de 2025 | R$ 15.879.964,27 | Informativo mensal do DRM-RJ |
Os dados evidenciam que Iguaba Grande recebe, em determinados meses, dezenas de milhões de reais provenientes das participações governamentais ligadas ao petróleo. Esses números explicam por que o tema dos royalties é central no debate político e administrativo da Região dos Lagos.
Onde o município informa que aplica esses recursos?
No portal oficial, a Prefeitura apresenta o Programa Iguaba Melhor (PIM), criado para acelerar intervenções de infraestrutura. Segundo a administração municipal, as obras são custeadas por uma combinação de fontes: SUS, Fundeb, salário-educação, royalties e transferências dos governos estadual e federal.
Entre as ações divulgadas estão pavimentação, drenagem, iluminação pública em LED, reformas e ampliação de equipamentos de saúde, construção de escola e creche e implantação de quadras poliesportivas. O portal informa ainda que o programa alcança cerca de 140 ruas com intervenções de drenagem, pavimentação e iluminação.
Essa informação é relevante porque evita uma conclusão simplista. Uma obra pública pode utilizar mais de uma fonte de financiamento. Assim, não é possível atribuir todo o benefício ao petróleo sem consultar o empenho, a fonte orçamentária e o pagamento de cada contrato.

As águas ficaram limpas graças aos royalties?
Não há comprovação pública suficiente para fazer essa afirmação de forma direta. Os royalties podem contribuir indiretamente para a capacidade de investimento da Prefeitura, inclusive em infraestrutura urbana, limpeza, ordenamento e ações ambientais. Contudo, a recuperação da Lagoa de Araruama é apresentada por fontes técnicas e institucionais como resultado, sobretudo, de políticas de saneamento implantadas ao longo de décadas.
A Prolagos, concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto em Iguaba Grande e outros municípios da região, destaca a recuperação da lagoa como um caso associado aos investimentos em saneamento básico. Entre as medidas adotadas está a chamada captação ou coleta em tempo seco, que intercepta contribuições de esgoto presentes em galerias pluviais e as encaminha para tratamento.
Também foi anunciado um cinturão de proteção da Lagoa de Araruama com 26 quilômetros de rede coletora. Para Iguaba Grande, a concessionária divulgou um pacote de aproximadamente R$ 89 milhões em obras de saneamento, incluindo 53,5 quilômetros de rede separativa de esgoto, estações elevatórias e linha de recalque. O projeto foi apresentado com a meta de ampliar o atendimento por rede separativa a metade da população iguabense.
Portanto, a explicação mais consistente é esta: a melhora da água está relacionada principalmente à redução do lançamento de esgoto sem tratamento, à expansão da infraestrutura sanitária e à gestão ambiental da lagoa. Os royalties fazem parte do cenário financeiro municipal, mas não devem ser apresentados como causa exclusiva.
Por que a água pode parecer tão transparente?
A Lagoa de Araruama é um ambiente hipersalino, com características diferentes das lagoas de água doce. Sua baixa profundidade em várias áreas, a luminosidade, o tipo de fundo, a circulação promovida pelos ventos, a reduzida entrada de grandes rios carregados de sedimentos e as condições meteorológicas do dia podem favorecer a transparência visual.
Isso não significa que todos os pontos estejam sempre próprios para banho. A qualidade microbiológica pode mudar após chuva forte, extravasamento, falhas operacionais ou lançamento irregular de esgoto. Por essa razão, o critério seguro é consultar o boletim de balneabilidade do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que monitora praias do Estado do Rio de Janeiro.
Transparência visual não é sinônimo automático de balneabilidade
Uma água aparentemente cristalina pode apresentar contaminação invisível, enquanto uma água com sedimentos naturais pode estar dentro dos padrões. O vídeo comprova a aparência da água naquele momento, mas a classificação para banho depende de análise laboratorial e histórico de amostras.

Quais benefícios a cidade recebe com essa transformação?
1. Turismo e economia local
Águas visualmente limpas, orla organizada e espaços de lazer fortalecem restaurantes, pousadas, comércio, pesca artesanal, esportes náuticos e serviços. A imagem ambiental positiva valoriza o destino e pode prolongar a permanência do visitante.
2. Saúde e qualidade de vida
A ampliação do saneamento reduz a exposição a esgoto e diminui riscos associados à contaminação da água. Parques, praias e ciclovias também incentivam lazer e convivência comunitária.
3. Valorização urbana
Drenagem, pavimentação, iluminação, revitalização de áreas públicas e saneamento tendem a valorizar bairros e imóveis. Nesse campo, os royalties podem funcionar como fonte complementar de financiamento, junto com recursos vinculados e transferências.
4. Preservação da pesca e do ecossistema
Uma lagoa ambientalmente equilibrada beneficia peixes, aves, pescadores e toda a cadeia econômica. A recuperação, porém, exige continuidade: ligações clandestinas, lixo, ocupação irregular e falhas de esgotamento continuam sendo riscos.
O que ainda precisa ser esclarecido pela Prefeitura?
Para que o cidadão saiba exatamente como o dinheiro do petróleo foi utilizado, é necessário publicar informações de forma simples, com identificação da fonte de cada obra. A transparência ideal deveria responder: quanto entrou de royalties em cada mês; quanto foi empenhado, liquidado e pago; quais secretarias utilizaram o recurso; quais contratos receberam pagamentos; e quais metas foram alcançadas.
Também seria recomendável separar os investimentos municipais das obrigações contratuais da concessionária de saneamento. A expansão da rede de esgoto realizada pela Prolagos não deve ser confundida automaticamente com obra paga pela Prefeitura.
Grandes shows e a necessidade de explicar as prioridades
Outro ponto que merece análise pública é o calendário de eventos e a contratação de artistas conhecidos. A realização de festas pode movimentar o turismo, gerar renda para comerciantes, divulgar o município e oferecer lazer à população. Entretanto, quando a cidade recebe um volume expressivo de royalties e ainda apresenta necessidades em saúde, manutenção urbana, drenagem, pavimentação, saneamento e outros serviços essenciais, é legítimo perguntar se as prioridades orçamentárias estão devidamente equilibradas.
O Portal de Contratos da Prefeitura registra, por exemplo, contratação de R$ 140 mil para apresentação do cantor Thiago Martins no Carnaval de 2026 e de R$ 80 mil para apresentação da cantora Cátia Valois, além de outras atrações. Esses valores não demonstram, por si só, irregularidade: eventos culturais e turísticos podem ser legalmente contratados. Porém, precisam ser analisados em conjunto com todos os demais custos envolvidos — palco, som, iluminação, segurança, estrutura, produção, hospedagem, transporte, publicidade e serviços de apoio — para que a sociedade conheça o custo total de cada evento e o retorno econômico estimado para o município.
Conclusão: royalties exigem transparência muito mais clara
Iguaba Grande recebe volumes expressivos de royalties do petróleo. Diante dessa arrecadação, a população tem o direito de saber, com absoluta clareza, onde cada parcela relevante foi utilizada. Informações genéricas — como dizer apenas que o dinheiro foi aplicado em “infraestrutura”, “saúde” ou “educação” — são insuficientes para permitir uma fiscalização social efetiva.
A Prefeitura deveria divulgar, em linguagem simples e em formato de fácil consulta, qual obra recebeu recursos dos royalties, qual secretaria administrou a despesa, quanto foi empenhado, liquidado e pago, qual foi o custo inicial, se houve aditivos, qual empresa foi contratada, qual o prazo de execução e qual percentual da obra foi efetivamente concluído. Também é essencial distinguir os investimentos pagos diretamente pelo município daqueles realizados com recursos estaduais, federais, vinculados ou pela concessionária de saneamento.
Essa prestação de contas precisa permitir que qualquer cidadão acompanhe o caminho do dinheiro: da entrada dos royalties no caixa municipal até o contrato, a medição da obra, o pagamento e a entrega do benefício. Sem esse detalhamento, torna-se difícil avaliar se o elevado volume de receita petrolífera está sendo convertido, na proporção adequada, em melhoria concreta da qualidade de vida.
Ao observar a cidade e comparar suas necessidades com os montantes recebidos, surge uma avaliação jornalística legítima: Iguaba Grande aparenta ter condições financeiras para estar ainda mais bem cuidada. Essa constatação não equivale a acusar a administração de desvio ou ilegalidade; significa cobrar resultados compatíveis com a capacidade orçamentária apresentada pelos repasses.
A mesma reflexão vale para a saúde pública. Considerando o volume de royalties e as demais receitas municipais, a estrutura de atendimento poderia, em tese, alcançar um padrão muito superior, com mais médicos, exames, especialistas, equipamentos, medicamentos, prevenção, atendimento de urgência e redução do deslocamento de pacientes para outras cidades. A expressão de que a saúde poderia ser “dez vezes melhor” deve ser entendida como uma crítica editorial à distância entre o potencial financeiro e o serviço percebido — não como uma medição técnica literal. Para transformar essa percepção em diagnóstico objetivo, seria necessário comparar orçamento, execução, cobertura, filas, indicadores de atendimento e resultados de saúde.
Também merece atenção o gasto público com grandes shows e artistas de alto custo. Cultura, turismo e lazer são políticas públicas legítimas, mas não podem ser analisados isoladamente. Cada contratação deve vir acompanhada de justificativa, custo total do evento, fonte do dinheiro, retorno esperado e demonstração de que despesas essenciais não foram prejudicadas. Em uma cidade beneficiada por receitas petrolíferas, a população precisa saber se o equilíbrio entre festa, promoção turística, saúde e infraestrutura atende ao interesse coletivo.
Por fim, a transparência observada nas águas da Praia de Iguaba Grande não pode ser atribuída exclusivamente aos royalties. A recuperação da Lagoa de Araruama está ligada principalmente à coleta e ao tratamento de esgoto, às redes separativas, à captação em tempo seco, à fiscalização e à preservação ambiental. O dinheiro do petróleo amplia a capacidade de investimento municipal, mas a sociedade precisa de documentos que mostrem exatamente em quais ações ambientais, urbanas ou sanitárias ele foi aplicado.
O ponto central desta reportagem é simples: quanto maior o volume de royalties recebido, maior deve ser o nível de transparência, planejamento, eficiência e prestação de contas. Iguaba Grande possui recursos e potencial para avançar muito mais. Cabe ao poder público demonstrar, obra por obra e secretaria por secretaria, como essa riqueza está sendo transformada em saúde, infraestrutura, desenvolvimento sustentável e qualidade de vida para a população.
Perguntas frequentes
Iguaba Grande recebe royalties do petróleo?
Sim. Informativos oficiais mostram repasses mensais elevados, sujeitos a variações de produção, preço, câmbio e critérios legais.
Quem é o prefeito de Iguaba Grande?
O prefeito atualmente no cargo é Fabinho Costa.
Os royalties foram responsáveis pela limpeza da lagoa?
Não existe comprovação suficiente para atribuir a recuperação exclusivamente a eles. O saneamento básico aparece como fator central nas fontes consultadas.
A água transparente está sempre própria para banho?
Não necessariamente. A confirmação depende dos boletins de balneabilidade e das análises do Inea.
Onde os royalties aparecem nas obras municipais?
A Prefeitura cita royalties entre as fontes do Programa Iguaba Melhor, juntamente com SUS, Fundeb, salário-educação e transferências estaduais e federais. Para saber o valor exato aplicado em cada obra, porém, é necessário consultar empenhos, pagamentos, contratos e a fonte orçamentária correspondente.
Os gastos com shows são necessariamente irregulares?
Não. Eventos culturais e turísticos podem ser legalmente realizados. A cobrança desta reportagem é por transparência sobre o custo total, a fonte dos recursos, a justificativa, o retorno econômico e a compatibilidade da despesa com as necessidades essenciais do município.
Fontes consultadas
- Prefeitura de Iguaba Grande — portal oficial e Programa Iguaba Melhor.
- Portal de Contratos — Secretaria Municipal de Turismo e Lazer, incluindo contratações artísticas de 2026.
- Prefeitura — articulação em defesa dos royalties.
- DRM-RJ — histórico e informativos de distribuição de royalties.
- DRM-RJ — royalties creditados em janeiro de 2025.
- DRM-RJ — royalties creditados em fevereiro de 2025.
- DRM-RJ — royalties creditados em março de 2025.
- DRM-RJ — royalties creditados em maio de 2025.
- DRM-RJ — royalties creditados em junho de 2025.
- DRM-RJ — royalties creditados em julho de 2025.
- Prolagos — recuperação da Lagoa de Araruama e saneamento.
- Prolagos — investimentos anunciados para Iguaba Grande.
- Prolagos — cinturão de proteção da Lagoa de Araruama.
- Inea — boletins de balneabilidade.
- Wikimedia Commons — imagens livres de Iguaba Grande.
Nota editorial: esta reportagem distingue valores recebidos, fontes de financiamento e causas ambientais. Quando não foi encontrada comprovação direta da origem de uma obra, o texto evitou atribuir sua execução exclusivamente aos royalties.