Mais que um teto: como o Rio tenta reinserir quem vive nas ruas

Por: Silvio Barbosa, PhD

Martha Rocha, secretária municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro
Martha Rocha, secretária municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro é uma cidade que pulsa 24 horas por dia. E é nesse mesmo ritmo contínuo que a assistência social precisa atuar. Para além dos cartões-postais, a capital fluminense enfrenta um dos desafios mais complexos da vida urbana contemporânea: o crescimento da população em situação de vulnerabilidade e de rua.

Sob a gestão de Martha Rocha, deputada estadual licenciada e atual secretária municipal de Assistência Social, a política pública tem buscado sair do assistencialismo puramente emergencial para adotar uma lógica mais estratégica, integrada e humana. A proposta não é apenas acolher, mas criar caminhos reais de reinserção social, articulando abrigo, saúde, mobilidade, documentação, renda e reconstrução de vínculos.

Quem vive nas ruas nem sempre está sem trabalho

Um dos pontos mais impactantes dessa discussão é a quebra de um estereótipo recorrente: nem toda pessoa que dorme na rua está fora do mundo do trabalho. Existe um contingente de trabalhadores informais — camelôs, catadores, ambulantes e outros profissionais da economia popular — que, embora tenham residência, acabam permanecendo próximos ao local onde atuam porque o custo do deslocamento diário se tornou pesado demais.

Nesse contexto, a rua deixa de ser apenas símbolo de abandono e passa a funcionar, em muitos casos, como um dormitório improvisado de sobrevivência. O problema, portanto, nem sempre é apenas a ausência de moradia. Muitas vezes, ele nasce da combinação perversa entre renda insuficiente, transporte caro e precariedade do trabalho urbano.

Essa leitura é importante porque desloca o debate do preconceito para a realidade concreta. Nem toda vulnerabilidade se explica pela falta de teto; muitas vezes, ela revela uma cidade onde trabalhar já não basta para garantir dignidade plena.

“Nessa população que a gente encontra na rua, tem uma parcela que trabalha. Só que o custo da passagem é muito caro. Elas permanecem durante a noite nas proximidades do local onde trabalham e apenas no final de semana é que retornam para suas casas.”

— Martha Rocha

Mais do que pernoite: acolhimento com foco em reinserção

A assistência social moderna não pode se limitar a oferecer uma cama por uma noite. O acolhimento emergencial é necessário, mas ele só faz sentido quando funciona como porta de entrada para uma trajetória de reconstrução.

No Rio de Janeiro, a rede socioassistencial opera com diferentes equipamentos e serviços voltados ao acolhimento institucional. A lógica que ganha força é a de transformar o abrigo em ponto de partida para autonomia, e não em espaço de permanência indefinida.

A ideia central é simples, mas poderosa: acolher não é esconder a pobreza da paisagem urbana. Acolher é abrir caminho para que a pessoa volte a ter projeto de vida, acesso a serviços públicos, documentação regularizada, acompanhamento profissional e condições de reconstruir sua trajetória.

Em vez de enxergar o abrigo como destino final, a política pública passa a tratá-lo como ponte. E ponte, por definição, existe para levar alguém adiante.

Projeto de horta em unidade de acolhimento e reinserção social no Rio de Janeiro
Projeto de horta como parte das ações de acolhimento e reinserção social.

CRAS e CREAS: entender a rede é o primeiro passo

Para quem precisa de ajuda — ou quer orientar alguém —, compreender a função dos equipamentos públicos da assistência social é fundamental.

O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) é a porta de entrada da proteção social básica. Ele atende famílias em situação de vulnerabilidade, oferece orientação, fortalece vínculos comunitários e encaminha o cidadão para benefícios e programas sociais.

Já o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) atua quando a violação de direitos já aconteceu ou quando a situação exige acompanhamento mais especializado. É o caso de violência doméstica, abandono, negligência, exploração, ruptura familiar e outras circunstâncias de risco social.

Essa distinção é decisiva. O CRAS trabalha na prevenção e no apoio inicial. O CREAS entra em cena quando o quadro é mais grave e demanda proteção especializada. Saber a qual porta bater pode fazer toda a diferença para quem vive uma situação-limite.

Assistência social precisa caminhar com saúde, documentação e renda

Nenhuma política voltada à população em situação de rua funciona de forma isolada. A assistência social, sozinha, não resolve o problema. O acolhimento só ganha efetividade quando está ligado a outras áreas, como saúde, saúde mental, educação, emissão de documentos, Cadastro Único e programas de transferência de renda.

Na prática, isso significa compreender que reinserção social não depende apenas de abrigo físico. Uma pessoa pode ter onde dormir e, ainda assim, continuar excluída se não tiver acesso a tratamento médico, apoio psicológico, documentação básica ou possibilidade de reconstruir vínculos e fontes de renda.

Por isso, a lógica intersetorial é tão importante. Quando assistência social, saúde e cidadania trabalham de forma articulada, o acolhimento deixa de ser um gesto paliativo e passa a funcionar como política pública transformadora.

A experiência de Martha Rocha imprime rigor técnico à gestão

A trajetória de Martha Rocha ajuda a explicar parte do perfil da atual condução da pasta. Com experiência em gestão pública e passagem marcante pela área de segurança, ela leva à assistência social uma visão de resposta rápida, coordenação institucional e decisão técnica.

Esse histórico faz diferença porque o desafio das ruas exige sensibilidade, mas também método. Não basta boa vontade. É preciso estrutura, inteligência administrativa, capacidade de articulação e foco em resultado.

Na assistência social, esse rigor não se manifesta por dureza, mas por efetividade. A decisão correta, nesse campo, é a que protege a vida, amplia direitos e constrói respostas concretas para situações de extrema vulnerabilidade.

O Rio só será maior quando enxergar os invisíveis

O problema da população em situação de rua não será resolvido apenas com vagas temporárias para dormir. Ele exige uma cidade capaz de reconhecer as múltiplas causas da exclusão e responder a elas com políticas permanentes, articuladas e humanas.

Ao tratar a assistência social como uma rede viva de proteção, e não como resposta improvisada, o Rio de Janeiro aponta para um caminho mais maduro. Um caminho em que acolher significa mais do que abrigar: significa oferecer oportunidade de reconstrução, dignidade e cidadania.

Uma grande cidade não se mede apenas por sua paisagem. Mede-se também pela forma como trata aqueles que foram empurrados para a margem. E talvez este seja o teste mais profundo de qualquer metrópole: sua capacidade de não abandonar ninguém à invisibilidade.

Assista à entrevista exclusiva com Martha Rocha

Para aprofundar esse debate, convidamos você a assistir à entrevista exclusiva concedida pela secretária Martha Rocha ao PUBLIRIO PODCAST, com apresentação de Silvio Barbosa.


Assista à entrevista completa no YouTube

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