Por Silvio Barbosa, PhD – PUBLIRIO ONLINE

A história do futebol brasileiro começa com Charles Miller, o jovem que desembarcou no Brasil em 1894 trazendo na mala duas bolas, chuteiras, uniformes e o livro de regras do futebol inglês. Mais de um século depois, esse esporte se transformaria em paixão nacional e tema central de uma entrevista exclusiva do PUBLIRIO ONLINE com o jornalista esportivo Eraldo Leite, um dos nomes mais respeitados do rádio brasileiro.
Integrante da equipe da Super Rádio Tupi, ao lado de gigantes como José Carlos Araújo, Luiz Penido, Gerson Canhotinha de Ouro e Dé Aranha, Eraldo relembrou sua trajetória, sua formação no jornalismo esportivo e as 11 Copas do Mundo que transmitiu presencialmente, de 1982 a 2022, experiência que lhe rendeu uma homenagem especial da FIFA no Catar.
Charles Miller: o homem que trouxe o futebol na mala
Quando Charles Miller desembarcou no Porto de Santos, em 1894, o Brasil ainda não sabia que aquele jovem de 20 anos estava trazendo algo que mudaria profundamente a cultura nacional. Filho de pai escocês e mãe brasileira de ascendência inglesa, Miller retornava da Inglaterra com objetos aparentemente simples: bolas de couro, chuteiras, camisas de clubes ingleses e o livro de regras do futebol.
Mas aquela bagagem era muito maior do que parecia. Charles Miller não trouxe apenas um esporte. Trouxe uma linguagem universal que, com o tempo, deixaria os campos restritos da elite para se transformar na grande paixão do povo brasileiro.
O Museu do Futebol registra que Miller aprendeu a jogar na Inglaterra, retornou ao Brasil em 1894 com duas bolas usadas, chuteiras, livro de regras e bomba de encher bolas, além de ter participado da fundação da Liga Paulista de Futebol.
Leia mais no Museu do Futebol.
A primeira partida reconhecida como marco inicial do futebol no Brasil ocorreu em 14 de abril de 1895, na região da Várzea do Carmo, em São Paulo, reunindo funcionários da São Paulo Railway e da Gas Company. Era o início de uma história que passaria por várzeas, clubes, estádios lotados, rádios, televisões, Copas do Mundo e gerações inteiras de torcedores.
O futebol nasceu no Brasil com sotaque inglês, mas rapidamente ganhou alma brasileira. A disciplina britânica cedeu espaço ao improviso, ao drible, à ginga, à criatividade e ao futebol-arte que encantaria o mundo com nomes como Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Neymar e tantos outros.
E é justamente essa longa caminhada, da chegada de Charles Miller às grandes Copas do Mundo, que serve de pano de fundo para a entrevista especial com Eraldo Leite, testemunha privilegiada de mais de quatro décadas do futebol mundial.
Briefing de Eraldo Leite
Eraldo Leite é um dos mais experientes jornalistas esportivos do rádio brasileiro. Com uma trajetória marcada pela elegância, conhecimento técnico e profundo respeito pela história do futebol, construiu sua carreira em grandes emissoras e hoje integra a equipe da Super Rádio Tupi, ao lado de nomes consagrados como José Carlos Araújo, Luiz Penido, Gerson Canhotinha de Ouro, Dé Aranha, Valdir Luiz e novos talentos da comunicação esportiva.
Formado pela prática intensa das coberturas, mas também com passagem pela universidade, Eraldo estudou jornalismo na UFRJ e iniciou sua trajetória no rádio ainda jovem. Ele contou na entrevista que, desde cedo, acompanhava o pai ouvindo futebol pelo rádio, especialmente as transmissões da Rádio Globo, com referências como Jorge Cury, Valdir Amaral, Deni Menezes e Austin Rodman.
Foi essa escuta apaixonada que o levou a escolher o caminho da reportagem esportiva. Eraldo explicou que havia muitos grandes narradores, mas poucos repórteres, e percebeu ali uma oportunidade para construir sua identidade profissional.
Ao longo da carreira, trabalhou com grandes mestres do rádio esportivo, como José Carlos Araújo, Deni Menezes, Washington Rodrigues, o Apolinho, e Luiz Mendes. Embora tenha admirado profundamente nomes como Jorge Cury e Valdir Amaral, contou que, por circunstâncias da profissão, não chegou a trabalhar diretamente com eles, pois estava sempre em emissoras diferentes nos momentos em que esses comunicadores mudavam de casa.
Eraldo Leite e as 11 Copas do Mundo

O grande eixo da entrevista exclusiva foi a impressionante marca de 11 Copas do Mundo transmitidas presencialmente, de 1982 a 2022. Essa trajetória colocou Eraldo Leite em uma galeria especial do jornalismo esportivo mundial.
Na Copa do Catar, em 2022, Eraldo recebeu da FIFA uma réplica da Taça do Mundo em homenagem aos jornalistas que haviam participado presencialmente de pelo menos oito Copas. Ele estava completando sua décima primeira cobertura mundialista.
Segundo Eraldo, a homenagem foi chamada de “Jornalistas no Pódio”, uma referência simbólica ao fato de que, normalmente, quem sobe ao pódio são os jogadores campeões. Naquele momento, a FIFA reconheceu também os profissionais da imprensa que dedicaram a vida a contar a história das Copas para milhões de torcedores.

Eraldo revelou ainda que sempre guardou suas credenciais, crachás, anotações e memórias de cada Mundial. Esse acervo pessoal deu origem à série “Caderno de Copas”, publicada em seu canal no YouTube, Eraldo Leite na Cara do Gol, onde ele relembra Copa por Copa com base não apenas em dados históricos, mas principalmente no que viveu, anotou e testemunhou.
Copa de 1982: a estreia e a dor de Sarriá

A primeira Copa do Mundo de Eraldo Leite foi a de 1982, na Espanha. Ele tinha apenas 22 anos e viveu intensamente a emoção de uma estreia internacional. Na entrevista, contou que, no primeiro jogo do Brasil contra a União Soviética, a emoção foi tão grande que forçou demais a voz e ficou rouco por três dias.
A Seleção Brasileira de 1982, comandada por Telê Santana, tinha nomes como Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Éder e Serginho. Era uma seleção encantadora, considerada por muitos uma das mais belas da história do futebol mundial.
Eraldo relembrou com emoção a derrota por 3 a 2 para a Itália, no histórico jogo de Sarriá. O Brasil jogava pelo empate, mas não abriu mão de atacar. Para ele, a dor não foi apenas perder a Copa, mas ver uma seleção que praticava o futebol mais bonito do mundo ficar pelo caminho.
Segundo Eraldo, jornalistas italianos chegaram a consolar os brasileiros na tribuna, reconhecendo que o Brasil era melhor. A derrota de 1982, para ele, está entre as grandes frustrações da história da Seleção Brasileira.
Copa de 1986: o drama de Zico no México
Na Copa de 1986, no México, Eraldo destacou o drama vivido por Zico, que chegou ao Mundial após uma grave lesão no joelho. Telê Santana insistiu para que o craque participasse, mesmo sem condições de atuar em tempo integral.
O momento mais marcante foi o pênalti perdido contra a França, no tempo normal. O portal ge tem um vídeo histórico do lance, registrando que Zico chutou, o goleiro defendeu e, depois do empate no tempo regulamentar, a França venceu o Brasil nas penalidades.
Link para o vídeo do pênalti perdido por Zico contra a França em 1986:
Assista ao pênalti perdido por Zico contra a França na Copa de 1986
Eraldo fez questão de contextualizar: Zico não fugiu da responsabilidade. Ele recebeu a bola das mãos de Sócrates, líder daquela seleção, e assumiu a cobrança. O goleiro francês defendeu.
Na disputa por pênaltis, Zico converteu sua cobrança. Quem perdeu foi Sócrates, e depois Júlio César chutou no travessão. Eraldo destacou que, muitas vezes, a memória popular coloca sobre Zico uma responsabilidade maior do que a realidade dos fatos permite.
Copa de 1990: a seleção defensiva de Lazaroni
Na Copa de 1990, na Itália, Eraldo relembrou a seleção comandada por Sebastião Lazaroni, marcada pelo esquema com três zagueiros. Para ele, o Brasil não estava preparado culturalmente para jogar dessa maneira, e o modelo acabou tornando a equipe excessivamente defensiva.
A eliminação para a Argentina, com jogada de Maradona e gol de Caniggia, ficou marcada como uma das grandes frustrações daquele Mundial. Eraldo também mencionou problemas internos, empresários circulando na concentração e uma equipe que, apesar de bons jogadores, não parecia totalmente focada na conquista do título.
Copa de 1994: o tetra e a redenção nos Estados Unidos
A Copa de 1994, nos Estados Unidos, marcou a redenção brasileira após 24 anos sem títulos mundiais. Eraldo recordou que a seleção começou muito criticada, vista como defensiva, mas cresceu ao longo da competição.
A base tinha Taffarel, Jorginho, Márcio Santos, Aldair, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. Para Eraldo, a grande diferença foi a dupla Romário e Bebeto, responsável por decidir jogos fundamentais.
A final contra a Itália terminou empatada em 0 a 0, e o título veio nos pênaltis. Eraldo relembrou a emoção do momento em que Roberto Baggio isolou a cobrança decisiva, garantindo o tetracampeonato brasileiro.
Depois de três Copas sem ver o Brasil campeão, ele brincou que já começava a se achar “pé frio”. Em 1994, esse peso finalmente acabou.
Copa de 1998: o mistério de Ronaldo na França
A Copa de 1998, na França, foi marcada pelo episódio do mal súbito de Ronaldo Fenômeno antes da final contra a França. Eraldo contou detalhes fortes do ambiente vivido pelos jornalistas.
Segundo ele, Ronaldo passou mal poucas horas antes da partida, foi levado ao hospital, fez exames e retornou ao vestiário. A primeira escalação divulgada trazia Edmundo como titular. Depois, com Ronaldo liberado clinicamente, Zagallo decidiu colocá-lo em campo.
O Brasil perdeu por 3 a 0 para a França, com grande atuação de Zidane. Eraldo explicou que ninguém saberá, com certeza, se o desempenho brasileiro foi afetado pelo drama de Ronaldo ou se a França simplesmente foi superior naquela noite. Mas o episódio permanece como um dos maiores mistérios da história das Copas.
Copa de 2002: a família Scolari e o pentacampeonato
Na Copa de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão, Eraldo destacou a reconstrução emocional da Seleção Brasileira sob o comando de Felipão. O Brasil chegou desacreditado, após uma campanha difícil nas Eliminatórias.
Mas, segundo Eraldo, Felipão conseguiu transformar o grupo na chamada “Família Scolari”. O time cresceu durante a competição e venceu os sete jogos, algo que somente a seleção de 1970 também havia feito em uma campanha brasileira campeã.
Com Marcos, Cafu, Roberto Carlos, Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo, o Brasil conquistou o pentacampeonato. Ronaldo, que havia vivido o trauma de 1998, brilhou na final contra a Alemanha e consolidou sua volta por cima.
Copa de 2006: o quadrado mágico que não encantou

A Copa de 2006, na Alemanha, foi lembrada por Eraldo como uma das mais bem organizadas que ele já cobriu. A Alemanha impressionou pela estrutura, planejamento e eficiência.
O Brasil chegou com grandes nomes, como Dida, Cafu, Lúcio, Juan, Roberto Carlos, Emerson, Gilberto Silva, Zé Roberto, Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo. Era o famoso quadrado mágico, mas a expectativa não se confirmou em campo.
Eraldo destacou que, no futebol, talento individual não basta. A França de Zidane eliminou o Brasil, e a seleção brasileira deixou a Copa com a sensação de que poderia ter ido muito mais longe.
Copa de 2010: Dunga, imprensa e isolamento
Na Copa de 2010, na África do Sul, a primeira realizada no continente africano, Eraldo destacou o ambiente de tensão entre a Seleção Brasileira e a imprensa. Após a abertura excessiva de 2006, a CBF optou por um fechamento quase total sob o comando de Dunga.
Para Eraldo, faltou equilíbrio. O técnico, que havia sido capitão campeão em 1994, transformou a relação com os jornalistas em um confronto permanente. As entrevistas coletivas eram tensas, e o clima interno não ajudava.
O Brasil foi eliminado pela Holanda, e a Espanha acabou campeã mundial pela primeira vez. Para Eraldo, aquele ciclo representou um tempo perdido para a Seleção Brasileira.
Copa de 2014: o 7 a 1 e a ausência de Neymar
A Copa de 2014, no Brasil, foi uma das mais dolorosas para o futebol nacional. Eraldo comparou a frustração do 7 a 1 contra a Alemanha ao trauma de 1950, no Maracanã, e também à decepção de 1982.
Para ele, o divisor de águas foi a lesão de Neymar contra a Colômbia. O jogador era a principal referência técnica da seleção e, sem ele, o Brasil perdeu poder ofensivo e confiança emocional.
Eraldo avaliou que Felipão errou ao escalar Bernard como substituto direto de Neymar, pois a Alemanha se sentiu livre da principal ameaça brasileira e cresceu rapidamente no jogo. O resultado foi uma das maiores derrotas da história da Seleção Brasileira.
Copa de 2018: Rússia, dificuldades e eliminação para a Bélgica

Na Copa de 2018, na Rússia, Eraldo estava pela Rádio Globo/CBN e relembrou a dificuldade logística da cobertura, especialmente pelo custo e pela barreira da língua. Ainda assim, destacou que os jornalistas se apoiavam em grupos de trabalho para facilitar a cobertura.
O Brasil chegou às quartas de final, mas perdeu para a Bélgica. Para Eraldo, a seleção belga tinha grande qualidade, com destaque para De Bruyne, mas a eliminação brasileira também passou por detalhes típicos do futebol: lances fortuitos, erros pontuais e situações que mudam o rumo de uma Copa.
Ele também comentou a dependência brasileira em relação a Neymar, observando que, no futebol atual, é muito difícil depender apenas de um jogador, como ocorreu em outros tempos com Pelé, Garrincha ou Maradona.
Copa de 2022: Catar, homenagem da FIFA e o futebol moderno
A Copa de 2022, no Catar, foi especial para Eraldo Leite por marcar sua 11ª cobertura presencial de Copa do Mundo. Foi também o Mundial em que recebeu a homenagem da FIFA, ao lado de outros jornalistas internacionais, incluindo Galvão Bueno.
Eraldo destacou que o Catar ofereceu uma experiência diferente: por ser um país pequeno, era possível assistir a mais de um jogo no mesmo dia, deslocando-se de metrô entre os estádios. Ele chegou a acompanhar três partidas em um único dia.
A eliminação brasileira para a Croácia, nos pênaltis, marcou mais uma frustração. Mas, para Eraldo, a cobertura do Catar também simbolizou o avanço da tecnologia no jornalismo esportivo.
Ele comparou as transmissões antigas, feitas com linhas da Embratel e equipamentos complexos, com as transmissões modernas pela internet. Embora a tecnologia tenha facilitado muitos processos, ele ressaltou que as dificuldades continuam existindo, apenas mudaram de forma: hoje, uma internet instável pode comprometer uma transmissão tanto quanto uma linha telefônica falhava no passado.
A importância de Eraldo Leite para o jornalismo esportivo
A entrevista com Eraldo Leite vai além da memória das Copas. Ela é também uma aula sobre jornalismo, rádio, ética profissional, formação e responsabilidade.
Ao falar para os jovens comunicadores, Eraldo deixou uma mensagem importante: gostar de futebol não basta para ser jornalista esportivo. É preciso estudar, buscar formação, informar-se, compreender a profissão e respeitar o público.
Esse recado tem grande valor em uma época em que muitos entram na comunicação pela paixão clubística, mas nem sempre compreendem a responsabilidade jornalística de informar com precisão, equilíbrio e conhecimento.
De Charles Miller a Eraldo Leite, a bola como memória do Brasil
Charles Miller trouxe o futebol para o Brasil como uma prática esportiva inglesa. O povo brasileiro transformou esse jogo em identidade, arte, emoção e cultura nacional. Décadas depois, jornalistas como Eraldo Leite ajudaram a narrar essa trajetória para milhões de ouvintes, telespectadores e internautas.
Das primeiras bolas de couro às transmissões por internet, do rádio de ondas instáveis às plataformas digitais, do campo de várzea ao Catar, o futebol brasileiro segue sendo uma das maiores expressões da nossa alma coletiva.
A entrevista exclusiva do PUBLIRIO ONLINE com Eraldo Leite é, portanto, mais do que uma conversa sobre Copas do Mundo. É um documento histórico sobre o rádio esportivo, a Seleção Brasileira e a memória afetiva de um país que aprendeu a ouvir, sofrer, vibrar e sonhar através da bola.
Assista à entrevista completa
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