É com profundo pesar que registramos o falecimento de José Cláudio Barbedo, conhecido no meio radiofônico como Formiga, ocorrido na quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, no Rio de Janeiro. Natural de Petrópolis, Formiga tornou-se um dos maiores expoentes da sonoplastia no Brasil, deixando um legado que ajudou a moldar a memória afetiva de gerações — no rádio, no esporte e na cultura popular.
Segundo relatos de pessoas próximas, Formiga passou mal em seu apartamento na segunda-feira e foi levado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Madureira, mas infelizmente não resistiu. Discreto, não era casado e não tinha filhos. Sua vida foi dedicada à arte de esculpir sons, criando atmosferas, vinhetas e identidades sonoras que viraram assinatura de épocas inteiras.
A vinheta “Brasil-sil-sil” e a criação que marcou a Seleção
A marca mais indelével de sua carreira foi a criação da lendária vinheta “Brasil-sil-sil”, associada à Seleção Brasileira desde as eliminatórias que antecederam a Copa do Mundo de 1970. Em um domingo de folga, em 1969, nos estúdios da Rádio Globo, Formiga aplicou sua genialidade técnica para construir o efeito de eco e reverberação sobre a voz do locutor Edmo Zarife — um feito artesanal e inovador para a época.
O processo, contado como fruto de experimentação e precisão, envolveu a combinação de gravadores, manipulação de rotação e passagem por filtros, até encontrar o impacto sonoro ideal. Em poucas horas, nascia um “grito” que atravessou décadas e segue arrepiando torcedores, como uma assinatura emocional do futebol brasileiro. Anos depois, a importância de sua autoria foi reconhecida também no campo jurídico, com o registro de direitos morais ligados à obra em ação contra o Grupo Globo.
Como surgiu a vinheta Brasil
Um mestre querido nos bastidores do rádio
Para além das conquistas técnicas, Formiga era lembrado como um profissional generoso — um “sonoplasta genial” e mestre para colegas e alunos. Seu trabalho, muitas vezes invisível ao público, era essencial: a sonoplastia é a engrenagem que dá ritmo ao rádio, sustenta narrativas, cria tensão, humor, identidade e emoção. E Formiga dominava essa linguagem como poucos.
Um encontro que virou memória: o livro “Super Rádio Tupi – 90 anos”
Em uma lembrança pessoal recente, durante o lançamento do livro SUPER RADIO TUPI: 90 anos de História, Inovação e Emoção, realizado na tradicional Confeitaria Colombo no dia 25 de setembro, a conexão de Formiga com a história do rádio se fez presente de forma emocionante. Nosso amigo em comum e ex-colega, Carlinhos Isa, adquiriu um exemplar da obra a pedido do próprio Formiga. Tive a honra de autografar o livro para ele — um gesto simples que agora ganha dimensão de despedida e se torna uma lembrança preciosa da nossa última interação, celebrando a trajetória de quem ajudou a escrever capítulos vibrantes da radiodifusão brasileira.
( vídeo: homenagem a Formiga entrevistado por Jose Carlos Araujo – análise sobre o futuro do rádio
O legado que continua ecoando
O rádio se despede de um de seus maiores artesãos. Mas a voz do “Brasil-sil-sil” seguirá ecoando como prova viva de que a sonoplastia também é autoria, criação e patrimônio cultural. O nome de José Cláudio Barbedo permanece — no som, na memória e na história. Descanse em paz, mestre Formiga.